A IMPORTÂNCIA DE PENSAR NO SOLO COMO UM "SISTEMA VERTICALMENTE FÉRTIL"


 

        O cenário agrícola brasileiro está atingindo um crescimento exponencial em função dos investimentos e busca de melhor eficiência produtiva em todos os setores do agronegócio brasileiro. Desde o pequeno produtor até o grande empresário rural tem atuado no campo de maneira diferente, buscando agregar tecnologia de produção e aliar ao mesmo tempo a otimização dos recursos naturais, humanos e materiais primando pela sustentabilidade destes sistemas.
      A agricultura moderna está sendo amplamente beneficiada com o desenvolvimento científico e tecnológico das instituições de pesquisas e universidades de todo o país. O crescimento de setores como o melhoramento genético de plantas, buscando cada dia novas cultivares de gramíneas, leguminosas, oleaginosas e florestais resistentes a pragas, doenças ou a adversidades climáticas como geadas, encharcamento, déficit hídrico prolongado, entre outras, tem contribuído para a adoção de práticas agrícolas em áreas antes improdutivas.
        O problema de máquinas atualmente também está sendo solucionado para a maioria das espécies cultivadas em larga escala. Plantadoras, cultivadores e colhedoras de culturas como cebola, cenoura, alho e inúmeras outras culturas já são uma realidade.
         Os impasses da agricultura brasileira tendem a ser solucionados em função da pressão de “produzir para alimentar o mundo”, com isso áreas de pastagem estão cedendo lugar a culturas como a soja, milho, sorgo, oleaginosas e culturas de inverno. Áreas inutilizáveis antes devido à degradação ou relevo estão sendo reflorestadas com plantio de espécies de eucalipto, principalmente. Com base nisso, pode-se dizer que o aumento da produtividade das culturas está nos detalhes do sistema de produção. Pequenos detalhes, pequenos manejos são os diferenciais para o incremento das produções agrícolas, e pensando nisso é necessário avaliar o solo como um “sistema verticalmente fértil”.
        Apesar dos inúmeros avanços tecnológicos que tem impulsionado a agricultura brasileira, diversos aspectos ligados ao manejo dos solos ainda são deixados de lado pelos produtores rurais. Em um mundo que está frequentemente adotando sistemas de precisão, correção do solo localizada, plantio direto e outros aspectos importantíssimos, não são possíveis deixar que o básico seja despercebido.
         A fertilidade do solo não está ligada apenas aos fatores químicos, é importante ressaltar que um solo fértil é aquele cujo seus atributos químicos, físicos e biológicos estão em perfeita harmonia, em equilíbrio, interagindo com a planta de modo a propiciar que esta possa expressar o seu máximo potencial de produção.
Um detalhe importante neste aspecto está ligado ao mais básico dos princípios da agricultura: Análise de solo. Ainda hoje é possível encontrar grandes fazendas brasileiras que não possuem um histórico da fertilidade dos seus solos, não adotam uma freqüência de amostragem do solo e quando adota, geralmente não explora mais do que 20 cm do solo.
        Na agricultura de hoje, não se pode pensar em trabalhar com 20 cm de solo, é necessário pensar no perfil do solo, na estruturação do perfil do solo, da incorporação de matéria orgânica nestes perfis através da adoção de certas práticas de cultivo como o plantio direto, adubação verde, rotação de culturas promovendo o plantio de plantas com diferentes estruturas radiculares em uma mesma área a fim de se realizar a bioestruturação física deste solo trabalhando no sentido de se evitar compactação subsuperficiais do solo e aumentando a sua porosidade.
          Nas regiões com presença de solos mais intemperizados como nas regiões do cerrado brasileiro, onde se encontra grande parte dos Latossolos do país é possível contornar problemas adversos como déficit hídrico trabalhando o perfil destes solos. Diversos tipos de solos no Brasil possuem características físicas fantásticas, passíveis de serem trabalhados em profundidade. Por quê pensar em uma camada de 20 cm de solo, quando podemos trabalhar com um perfil de dois metros ou mais?
         A princípio parece difícil, há pouco tempo atrás também parecia difícil adotar o sistema de plantio direto, principalmente em áreas do cerrado. Entretanto, segundos dados da Associação de Plantio Direto no Cerrado (APDC), estima-se que cerca de 56% de toda área cultivada com grãos do país está sendo produzida sobre este sistema, o que corresponde a aproximadamente 25 milhões de hectares.
Notavelmente, torna-se inviável o manejo do perfil do solo quando comparado ao manejo tradicional em função da profundidade a qual se deseja trabalhar, porém, o ponto chave é visualizar a estruturação do perfil do solo em longo prazo.
         Assim como existe os manejos integrados para o controle de plantas daninhas, pragas e doenças, que constituem num conjunto de práticas e medidas adotadas para maior eficiência ao combate destas interferências bióticas, visando a máxima produtividade das culturas, quando se deseja trabalhar o solo de forma vertical, acaba-se pensando num “manejo integrado para estruturação e fertilidade do solo”, ou seja, é importante trabalhar os solos agrícolas visando a sua estruturação química, física e biológica a longo prazo.
        Como foi dito anteriormente, os pequenos detalhes nos manejos básicos da agricultura são responsáveis por grandes incrementos. Uma cultura em um solo compactado tende a produzir menos que aquela que se encontra em ambiente poroso, bem estruturado e com condições mais adequadas. Uma planta que tem o potencial de crescimento radicular até uma profundidade de um metro tolera muito mais uma seca prolongada em vista daquelas em que seu sistema radicular chega a explorar no máximo 40 cm.
        Em plantas perenes, este resultado pode ser ainda mais visível quando se trabalha com o perfil do solo. Um exemplo disso são os cafeeiros cultivados na região da serra da canastra, onde produtores trabalham na estruturação do solo e melhoria da qualidade química através da adoção de manejo de gessagem, o que proporciona a eliminação de alumínio e manganês nos horizontes do solo, além de outros benefícios conhecidos como o carreamento de bases em profundidade através da aplicação deste insumo.
       No período mais seco do ano nesta região, enquanto inúmeras lavouras estão sofrendo as consequências da falta de água no solo, é possível notar o vigor e turgidez dos cafezais em que seu sistema radicular é bem melhor desenvolvido. Como este consegue atingir maiores profundidades no solo, as raízes que vão crescendo verticalmente acabam trazendo “águas mais profundas”, mantendo maior qualidade destas plantas.
        Nem todos os solos possuem perfis profundos, algumas classes como Neossolos e Litossolos, por exemplo, possuem limitação pedogenética, em função da presença de camada rochosa muito próxima a superfície. Em geral solos mais jovens possuem esta limitação, neste caso há de se avaliar o potencial agrícola destas áreas e a cultura adequada para a implantação nestes casos. Mesmo com essa limitação deve-se trabalhar pensando em explorar o máximo potencial que este perfil pode fornecer a cultura, a fim de aumentar o suporte ao seu desenvolvimento e buscar o equilíbrio químico, físico e biológico tão buscado pelos profissionais agrícolas.


Autor: Josimar Rodrigues Oliveira – Engenheiro Agrônomo

FONTE: Revista Agropecuária