EMPRESAS MINEIRAS CRIAM A SOJA MARROM QUE DEVE CHEGAR AO MERCADO AINDA EM 2011

Grão se utiliza da semelhança com o carioquinha para tentar conquistar o gosto dos consumidores nacionais
por Mariana Caetano | Fotos Roberto Seba 
 

      O brasileiro está acostumado à dobradinha feijão com arroz. Mas um terceiro elemento quer revolucionar o mais típico dos pratos nacionais. Fruto de um trabalho conjunto entre a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) e a Fundação Triângulo, a soja marrom pretende se utilizar da semelhança com o feijão carioquinha para romper a barreira da rejeição ao consumo da oleaginosa no país. A nova cultivar, denominada BRSMG 800A, foi obtida por melhoramento clássico: ao longo de cinco anos, estudiosos selecionaram variedades que apresentavam grãos marrons e foram aperfeiçoando essas plantas até que adquirissem características agronômicas. O resultado, segundo os pesquisadores, é um alimento com sabor agradável e bom aspecto visual.
      Os técnicos promoveram testes de degustação em diversas localidades de Uberaba (MG) e a aceitação do novo produto surpreendeu, já que o conhecido gosto rançoso da soja comum se tornou quase imperceptível. “O que dá o sabor desagradável à soja é uma enzima chamada lipoxigenase, mas o maior teor de amido da nova cultivar ajuda a mascarar essa substância”, afirma Ana Cristina Juhasz, pesquisadora da Epamig. A BRSMG 800A não solta casca, o que facilita o cozimento. Para o preparo, o grão marrom é lavado (não é preciso deixá-lo de molho) e colocado na panela de pressão, estando pronto em cerca de 40 a 50 minutos após a fervura – tempo um pouco maior em relação ao que o feijão leva para ficar no ponto.
      A avaliação no campo também foi animadora. A variedade, que começa a ser plantada em outubro para a safra 2011/2012, apresentou rendimento ligeiramente inferior à MG/BR-46 Conquista, cultivar de alto potencial produtivo. A soja marrom alcançou produtividade média de 50,3 sacas por hectare, enquanto a Conquista atingiu 53,1 sacas por hectare. “Entretanto, o ciclo da BRSMG 800A foi uma semana mais precoce, fechando com 120 dias do plantio à colheita, enquanto a Conquista ficou em 132 dias”, compara Vanoli Fronza, pesquisador da Embrapa Soja. Em relação às doenças, a nova cultivar é resistente ao cancro da haste da soja, mas é suscetível aos nematoides formadores de galhas. Ela tem altura semelhante à da Conquista, mas tende a acamar menos.
      Desenvolvida inicialmente para o cultivo em Minas Gerais, a BRSMG 800A já chama a atenção de produtores de outras regiões. “Há agricultores do Rio Grande do Sul ao Nordeste interessados no plantio. E já estamos testando a variedade no norte de São Paulo e em Goiás”, conta Fronza. Atualmente, quatro produtores de sementes ligados à Fundação Triângulo investem na soja marrom. E são esses licenciados que, além de multiplicar as sementes, cuidarão de beneficiar e levar o produto às prateleiras, em pacotes de um quilo. Por isso, em um primeiro momento, agricultores interessados na cultivar somente conseguirão plantá-la em associação com essas empresas de sementes, que podem fornecer o material para plantio e, posteriormente, receber de volta o grão para processá-lo.
      Para chegar aos consumidores, a nova cultivar conta com a consultoria do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), que sugeriu a criação de uma marca para dar suporte à entrada do produto no mercado. Nasceu, assim, o selo Soja de Minas, que terá a submarca Nutrisoy para identificar o grão marrom.
      As similaridades com o feijão não se limitam às características visuais e de sabor: a expectativa é que a soja marrom alcance preço equivalente, em torno de R$ 3 o quilo. Para o produtor, a remuneração vai depender de uma negociação entre o agricultor e o licenciado da Fundação Triângulo. “O custo de produção é o mesmo da soja convencional. Mas o preparo para chegar ao consumidor final é diferente. Não temos um valor fechado ainda, mas acreditamos que o preço pago ao produtor vai remunerá-lo a contento”, afirma Fronza. O novo grão deve chegar ao mercado ainda no segundo semestre deste ano ou, no mais tardar, no início de 2012.  

Revista Globo Rural 
      A inclusão da soja em pratos com o feijão carioquinha também tem como objetivo elevar o valor nutricional da comida. Isso porque a soja é mais rica em proteínas, cálcio, fósforo e ferro se comparada ao feijão. É também considerada um alimento nutracêutico: além de nutritivo, tem propriedades farmacêuticas. O Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Triângulo Mineiro (IFTM) realizou testes sensoriais para avaliar o desempenho da soja marrom. A pesquisa concluiu que a mistura proporcional de 50% entre a nova soja e o feijão carioquinha pode aumentar em 30% o valor proteico do prato e ainda garantir um sabor agradável. Ao todo, 819 pessoas experimentaram a soja marrom preparada com caldo de feijão em um supermercado de Uberaba (MG). Desse total, 80% disseram que certamente comprariam o produto; 13% informaram que provavelmente comprariam; e 7% disseram que talvez comprassem o produto.

FONTE: Revista Globo Rural Online