CULTIVO DA MANDIOCA NO SISTEMA DE PLANTIO DIRETO


 Marco Antônio Sedrez Rangel 
(Embrapa Mandioca e Fruticultura) 
Enilto de Oliveira Neubert 
(EPAGRI)
        A mandioca é cultivada em todas as regiões do Brasil, sendo responsável pela manutenção da segurança alimentar de muitas populações e também assume grande importância econômica na produção de alimentos, renda e empregos.
        O sistema convencional de cultivo de mandioca, prevalecente no Brasil promove o intenso revolvimento do solo nas fases de preparo para o plantio, com o uso intensivo de arações e gradagens, e de colheita. Tais práticas intensificam os processos de erosão do solo, a degradação da matéria orgânica e o aumento da emissão de CO2 para a atmosfera, culminando, na maioria dos casos, na redução da qualidade do solo.
        O modelo convencional de produção de mandioca constitui-se uma ameaça aos recursos naturais e, consequentemente, à sustentabilidade dessa atividade. Não obstante, a cultura da mandioca representa uma importante atividade agrícola em vários estados do Brasil e precisa ter continuidade de forma sustentável. Frente ao cenário de mudanças climáticas, surge a necessidade de buscar alternativas de manejo para o cultivo da mandioca no contexto brasileiro que priorizem o revolvimento mínimo do solo, favoreçam maior cobertura, promovam o aumento dos níveis de matéria orgânica do solo e contribuam para as metas globais do país de mitigação de emissão de gases de efeito estufa.
        No segmento produtivo, a maior parte dos agricultores percebe a gravidade da situação, mas raramente adota alternativas para a minimização da erosão. Em muitos casos, são realizadas algumas práticas, como a construção de terraços em nível; não obstante, comumente a mandioca é plantada em áreas com declividade superior a 10% e, com a não rara ocorrência de chuvas intensas, essa medida não é suficiente para evitar os problemas.
        Em várias situações onde se tem estabelecido o debate sobre as alternativas para a minimização da erosão, os agricultores e alguns técnicos relatam dificuldades para adoção de sistemas conservacionistas, como o plantio direto. As dificuldades estariam relacionadas à necessidade de investimentos em maquinário e insumos, situação de uso da terra (é comum o arrendamento de pastagem degradada por apenas dois anos para a condução da lavoura), indisponibilidade de mão de obra para a realização de capinas, falta de conhecimento acerca do manejo do mato, principalmente no pós-plantio e na pré-emergência, falta de opções de herbicidas registrados para a cultura, manejo nutricional da cultura, balanço econômico do sistema, entre outras. Além disso, experiências anteriores, muitas vezes conduzidas pelos próprios agricultores, sem maior consideração com as condições predisponentes à boa execução do plantio direto (condições do solo, sistemas de abertura e fechamento do sulco das máquinas, ausência de plantas espontâneas de difícil controle, manejo do banco de sementes do mato, uso adequado de herbicidas, gestão de nutrientes, variedades e época de plantio adequadas), incorreram em maus resultados, gerando descrédito acerca do tema.
        Mesmo com o aumento de interesse por parte da pesquisa, em função dos problemas decorrentes dos sistemas usuais de cultivo, os trabalhos ainda são escassos e carecem de maior enriquecimento quanto às respostas para que se logrem aumentos substanciais de sustentabilidade e credibilidade. Vários trabalhos foram conduzidos até o momento visando avaliar o plantio direto da mandioca; contudo, os resultados não têm sido condizentes entre si.
A partir de 2007, a Embrapa Mandioca e Fruticultura passou a intensificar sua atuação nesse tema, por meio da coordenação de projetos em vários locais do Brasil. Dentre as ações, procurou-se conhecer as experiências de outras instituições no tema “Plantio direto” e, a partir daí, desenvolver os trabalhos no sentido de identificar e resolver os gargalos tecnológicos para a adoção do sistema. Um dos maiores estudiosos e entusiastas do tema, o Prof. Dr. Emerson Fey, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), campus de Marechal Cândido Rondon, PR, estabeleceu vários experimentos para avaliar um dispositivo sulcador para permitir o melhor desenvolvimento das raízes sem, no entanto, revolver a superfície, evitando as perdas por erosão comuns em plantio convencional. Seus resultados permitiram concluir pela viabilidade técnica e econômica da inovação, pois foram obtidas produtividades semelhantes entre os sistemas conservacionistas e convencionais, agregando a vantagem da preservação ambiental.
        Com a parceria do professor Emerson, iniciou-se um processo de discussão mais amplo, envolvendo várias instituições no Brasil, no sentido de estudar e validar o plantio direto em regiões com diferentes situações edafoclimáticas, só que agora com o envolvimento dos atores do setor produtivo em todas as fases.
Objetivando-se de conhecer a dimensão das perdas e sensibilizar os atores para a sua mitigação, instalaram-se algumas unidades para medição de perdas de solo em diferentes sistemas. Além da coleta de dados, têm sido realizados eventos, como visitas técnicas, dias de campo e outros. A partir da melhor visualização do problema, os agricultores são convidados a colaborar nas ações de desenvolvimento e validação do plantio direto em suas propriedades. Em uma unidade conduzida na estação experimental de mandioca da Epagri, em Urussanga, SC, verificaram-se perdas de solo no sistema convencional dez vezes superior ao plantio direto sobre palhada de aveia preta. Desde 1996, a Epagri tem desenvolvido experiências exitosas em plantio direto nas areias quartzosas do litoral sul de Santa Catarina, denotando a adequação do plantio direto também aos pequenos agricultores familiares.
        As unidades de observação e validação do plantio direto são planejadas e conduzidas de forma participativa, com o objetivo da promoção da discussão e, consequentemente, a apropriação das tecnologias por parte dos agricultores. Essas unidades estão em implantação nos estados do Paraná, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e Bahia.
        A partir da atuação destacada da Unioeste e da Associação Técnica das Indústrias de Mandioca do Oeste do Paraná (Atimop), pioneiras nesse trabalho, a região oeste do Paraná conta hoje com grande parte das suas lavouras de mandioca em plantio direto. A atuação da Embrapa nesse contexto tem sido de compor sinergias com essas e outras instituições, no sentido de cumprir sua missão para com a sociedade brasileira, atuando cooperativamente na solução dos gargalos tecnológicos e na apropriação da tecnologia pelo segmento produtivo. Outro exemplo dessa atuação foi a coordenação de processo para a regularização de uso de agrotóxicos na cultura (outro gargalo encontrado), em conjunto com representantes da cadeia produtiva, que resultou no atendimento de uma antiga demanda do setor.
        Participam do processo várias outras instituições como a Epagri, Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural (Agraer-MS), Cooperativa Agroindustrial do Noroeste Paranaense (Copagra), Aliança Cooperativa do Amido (Bahiamido), Cooperativa Agrícola Sul Matogrossense (Copasul), Associação das Indústrias Processadoras de Mandioca e Derivados de Santa Catarina (AIMSC), prefeituras municipais de Sangão (SC), Treze de Maio (SC) e Ivinhema (MS) e a Universidade Estadual de Maringá (UEM), Campus Regional do Noroeste. Com isso, pretende-se viabilizar a adoção do plantio direto da mandioca, de forma cooperativa, com protagonismo dos agricultores, e com a preocupação de atender à sociedade com um sistema de produção justa, economicamente viável e que gere preservação ambiental e alimentos seguros.

FONTE: Grupo cultivar